Hoje vou escrever de um modo um pouco diferente, já que não aconteceram muitas coisas hoje no acampamento que merecem um relato objetivo.
Como a Carol disse no blog dela, as pessoas que vem com a Aiesec para outros países são, na maior parte das vezes, muito inexperientes e imaturas. Não sei se eu passei por tantas dificuldades ou problemas nas primeiras viagens que eu fiz, mas acho que muitas vezes as pessoas são bastante despreparadas. Já contei o caso da menina que dividiu quarto comigo por uma noite. Ela estava completamente perdida e os infortúnios que aconteciam com ela não eram fruto somente de uma grande má-sorte, mas também de besteiras que ela fazia.
Mas coisas assim continuam acontecendo com diferentes pessoas todos os dias por aqui. Parece que não há pessoas maduras que viajam, ou que trabalham na Aiesec, são tão poucas que dá pra se contar nos dedos. É bem cansativo isso, porque não se dá pra confiar muito nas pessoas e elas confiam e dependem demais dos outros. E elas não percebem isso. Um dia antes de eu vir para o acampamento, o pessoal do meu projeto ia patinar toda a noite e uma menina brasileira que está no meu hostel queria ir. A princípio eu disse que iria, mas mudei de ideia, porque precisava descansar para a viagem e não estava me sentindo bem. Disse isso a ela e ela acabou não indo porque não sabia ir sozinha. Ela tinha o nome da estação em que tinha que descer e tem uma estação bem próxima do hostel. O que mais ela precisava?
Foi mais ou menos a mesma coisa que aconteceu com a ida à ópera. As pessoas não estavam prontas na hora em que eu queria sair, por isso não as esperei. Acho que elas não gostaram muito, quando falei qual ônibus pegar para chegar lá. O que eu poderia fazer? Se é pra ser guia de viagem vou cobrar para isso! De qualquer modo, não me importo, porque todos só querem ir pra ópera pra falarem que foram, mesmo que durmam durante toda o espetáculo e fiquem tirando fotos quando estão acordados. Não vou ficar ensinando para um monte de gente crescida o tempo todo as regras de conduta dentro, antes, durante e depois da ópera, se na verdade, elas nem estão interessadas assim em ir. Se estivessem estariam prontas no horário e não dependeriam tanto de mim.
Mas não é só em relação a viagens e passeios que as pessoas são imaturas. Não sei se são diferenças culturais, mas tem certas condutas que não consigo entender e aceitar bem. O meu colega B., que estava o tempo todo saindo comigo, estava sendo uma boa companhia, porque era o único disposto sair e não ficar dormindo o tempo todo. Porém, muito tempo de convivência leva a problemas. Ele começou a ficar inconveniente para mim, porque não para de fazer comentários sobre eu e ele sermos um casal gay, porque tivemos que dividir a cama alguns dias. Mesmo para pessoas que nem nos conhecem ele fica fazendo esse tipo de brincadeira, que a início pode até ser engraçada, mas com o tempo perde toda a graça e passa a ser irritante. Mas o pior foi o que aconteceu um dia antes de eu ir viajar, quando ele quebrou o pé. Eu não estava com ele e quando ele chegou, aborrecido por ter que ficar mais de uma semana imobilizado, começou a me desejar diversos males, como “quebre o pé também” ou “fique doente”, para me fazer companhia. Isso é não é uma coisa boa, acho que em nenhuma parte do mundo. Falei que isso também não tinha graça, mas ele não ligou e continuou dizendo essas coisas. Eu fico brincando com diversas coisas o tempo todo, mas acho que tudo tem um limite, que é quando começa a incomodar. Acho que as pessoas estão começando a ficar doidas com o frio ou com a falta de luz ou de o que fazer.
Uma coisa parecida aconteceu com a H., menina chinesa que veio comigo aqui para o acampamento. Ontem, durante a parte da tarde, onde tínhamos que esperar as crianças virem negociar com a gente ela estava super entediada, ficando falando diversas coisas malucas e me enchendo, me chamando de velho, porque eu estava com dores nas costas, com um pouco de gripe e tentava não me entediar lendo um livro. Ela me encheu o dia inteiro de ontem com isso, mas estávamos bem próximos e conversando bastante, já que os poucos outros que falam inglês não têm tempo para ficar com a gente. Até aí tudo bem. O pior começou quando um dos russos que não fala inglês resolveu ensinar russo para a gente e diversas pessoas ficaram assistindo e rindo das nossas tentativas de pronunciar algumas palavras e frases curtas. Como os fonemas dos russos não são tão estranhos para o português e para mim, em especial, porque sei algumas outras línguas, eu tinha menos dificuldades que ela, que só fala chinês e inglês, o que fez com que ela ficasse bastante diferente comigo, me tratando com ironia o tempo todo, dizendo coisas como: “Vai lá, você é tão esperto!”. Tava achando bem estranho isso, mas aí fomos dormir e achei que tudo ia ficar bem. Mas quando acordei, um pouco atrasado porque eu tinha tomado um Naldecon noite para melhorar da minha gripe, eu tinha que preparar uma pequena atividade com as crianças e ela me explicou. Foi totalmente seca e só foi diferente disso quando usava ironia. Era uma atividade em inglês para as crianças, em que elas tinham que escolher entre cinco tópicos (algo como “meus momentos”, “minha mãe”, “meus livros ou filmes favoritos”, “meus hobbies” e “meus amigos”) e elaborar um pequeno texto e ler para os outros. Eu e ela ficamos responsáveis por fazer um pequeno exemplo disso, sendo que ela ficou com os três primeiros temas e eu com os dois últimos. Essa parte foi tranquila, sem grandes perturbações, assim como a seguinte quando as crianças leram os seus textos. A maioria, dos que participaram da atividade, que era opcional, fala um inglês bastante razoável e mesmo quando fazíamos perguntas para elas, conseguiam responder sem muitas dificuldades. No final da apresentação, o Sasha fez sua apresentação falando sobre a Aiesec e nos convidou para falar um pouco sobre isso e como funcionam os intercâmbios. As crianças pareciam bastante interessadas, principalmente quando disponibilizamos o nosso Facebook para elas nos adicionarem. Como ainda faltavam ainda alguns minutos, abriu-se uma sessão de perguntas sobre assuntos variados para as crianças fazerem. Uma das meninas perguntou sobre como entrar na faculdade na Inglaterra, onde a H. estuda e ela respondeu que era só fazer o Ielts. Eu complementei dizendo que dependia um pouco também da faculdade que ela queria ir e que o mais fácil para se saber melhor era verificar o site na internet. A H. não gostou muito disso, porque a sua experiência dizia que era só fazer o Ielts que estava muito certo, mas eu acho que é melhor responder a pergunta do melhor jeito possível. Vai que a menina quer estudar em Oxford? Os requisitos serão outros. A seguir a Katya, namorada do Sasha, pediu para a H. falar sobre os seus colegas na Inglaterra e como ela se dava com eles. Ela falou que os ingleses odeiam os chineses e preferem os japoneses e que não entendia o porquê. Eu não fiquei satisfeito com essa resposta, porque ela não é totalmente verdadeira (nem todos os ingleses odeiam chineses) e porque não é bom falar as coisas desse jeito para as crianças. Elas estavam super empolgadas com a possibilidade de ir viajar e ir viver num outro país e eu acho isso muito legal. Por isso, preferi complementar a sua resposta dizendo que apesar de todos os estereótipos que existem sobre outros países, não é necessário se preocupar muito com eles, que a maioria das situações são contornáveis, mesmo com algumas dificuldades. Eu citei o exemplo de Brasil e Argentina, onde as pessoas pensam haver uma grande rivalidade, mas que na verdade, as pessoas de ambos os países se dão muito bem. Eu tentei a todo o momento dizer que o exemplo dela também era válido, mas que eles não se limitassem a esse tipo de estereótipo, para não limitar as suas escolhas no futuro, já que o mundo se torna muito mais divertido e fácil assim. Só sei que depois disso ela não olhou mais para mim, nem falou comigo. Não tive nem a oportunidade de falar com ela porque ela não deixou. Se ela ficou magoada, eu poderia pedir desculpas pela situação, porque ainda temos que conviver por mais algum tempo, mas nem isso ela permite. Ela simplesmente me ignora o tempo todo e tenta se afastar de mim. Então não posso fazer nada... Talvez as barreira que ela vê nos ingleses sejam iguais a essas que ela mesma criou comigo. Talvez eu tenha um pouco de culpa, sendo uma situação análoga a do restaurante em Cusco com a Júlia. Se for assim, melhor, porque amanhã vai estar tudo bem. Talvez tudo só tenha a ver com o modo como as diferentes culturas veem o mundo. Os brasileiros veem o mundo sem barreiras, procurando ver tudo, que não seja o Brasil, pelo lado bom. Não vemos muitas dificuldades, mesmo que elas existam e acabamos como a pobre da menina que dividiu o quarto comigo: pela primeira vez fora do país, do outro lado do mundo e sem falar inglês. Mas, pelo menos, vemos um mundo bem mais livre e feliz. Já os chineses, talvez pelo regime político, ou pelas relações com os outros países, veem muitas dificuldades e barreiras no mundo e é isso o que priorizam em seu discurso. O que eu escrevi são só estereótipos que como disse, não valem muita coisa, sendo bons para se pensar sobre eles e nada mais. Não sei qual a avaliação que as crianças russas tiveram dessa “discussão”, mas tomara que vejam o mundo de um modo mais livre e fácil, pois assim o mundo os verá com melhores olhos.
Por causa de todas essas coisas que estou pensando em me ocupar mais quando eu voltar para St. Petersburg. Vou tentar me mudar do hostel, porque não dá mais para aguentar aquela coisa que chamam de cama, mesmo que tenha que pagar alguma coisa. Afinal, ainda tenho mais de um mês antes de ir embora e não aguento mais as pessoas dependentes. Talvez eu encontre algum lugar pra fazer aulas de russo para me ocupar.
Só completando o que eu havia dito anteriormente, não vou conseguir chegar para o concerto, porque só vou poder chegar em St. Petersburg no dia 12, um dia antes do começo do meu trabalho.
Apesar de não ser como queria, espantou a carniça. Como dizia um sábio: antes só que mal acompanhado. Não creio que seja só racial mas acho que essa H. deve ter outros conflitos. Se você está na terra dos anglo-saxões, querer ser recebido de braços abertos é uma piada. Fala para ela esperar que daqui a pouco, quando a China se tornar a maior potencia do mundo, com certeza ela vai ser mais bem tratada que os japoneses.
ResponderExcluirQuanto ao Bagas, deixe claro que você é comprometido seriamente com uma senhorita e para ele procurar outro parceiro.
ResponderExcluirOi amor!! Nossa, que coisa chata!! Eu nao acho que vc fez nada de errado, pela descricao, nao me parece uma situacao analoga. Porque o modo como ela respondeu realmente nao eh educativo, e a prioridade eh a relacao com as criancas. Eu acho que o nosso jeito independente e proativo de ser, apesar de serem valores que a AIESEC pede dos seus membros, assusta a maioria das pessoas porque elas acham que tem essas qualidades mas nao tem. Eu senti um pouco isso aqui, na coisa de ter pessoas dependendo de mim o tempo todo, mas eu, diferente de vc, nao me importo muito com isso, eu posso ser meio 'mae'. De qualquer forma, lidar com as pessoas exige um jogo de cintura tremendo. Como exigir que as coisas sejam feitas sem ser rude ou fazer inimizades com as pessoas? Como ficar cobrando pelas nossas condicoes de vida e de trabalho sem tambem fazer as pessoas ficarem de saco cheio da gente 'reclamando'? Eu acho que talvez o problema maior seja dela mesmo, porque as pessoas de quem eu mais vou sentir falta sao dois chineses que eu conheci aqui. E um deles esta indo pra cambridge, e o teste nao foi soh o IELTS. Bom, ja falei bastante, mais tarde eu falo com vc!!
ResponderExcluirBjos!!
Yami