Faz um bom tempo que eu não escrevo, mas por preguiça do que por estar muito ocupado. Voltou a ficar bem frio, por volta de -20 de novo, depois de alguns dias de alívio, com a temperatura por volta de zero grau. É bem estranho o tempo aqui, porque quando a gente acorda e vê o sol brilhando, significa que está muito frio. Dias nublados são mais amenos, mas em compensação possuem maior probabilidade de neve. As pessoas que eu conheci por aqui também estão, aos poucos, indo embora, mas eu também já me vou. Estou um pouco cansado da cidade e da vida aqui, não sei exatamente porque, mas não estava muito motivado com o trabalho, que apresentou alguns problemas ultimamente, e talvez por não estar muito confortável por aqui. Morar num hostel é bom por algum tempo, mas chega uma hora que cansa. É estranho não ter um canto seu, em que você pode ficar confortável e tranquilo. O problema ainda é maior porque eu não tenho algo como uma biblioteca ou uma universidade para ir e estudar, ou usar o computador em paz. Por isso, nos últimos dias, sou um assíduo frequentador de cafés, indo todos os dias pelo menos uma vez pra ficar lendo ou só descansando. Aqui a cultura de cafés é bem difundida, havendo vários por todas as ruas e sempre com muitas pessoas se esquentando. Mas minha principal ocupação nas últimas duas semanas tem sido frequentar teatros e apresentações musicais, que é o que eu gosto de fazer pra passar o tempo. Tive companhia algumas vezes, fui sozinho em outras, mas é estranho não ter com quem conversar e discutir sobre as impressões sobre as performances. Eu fui a três ballets e a dois concertos desde sábado passado. A trilogia do Tchaikovski (A Bela Adormecida, O Lago dos Cisnes e O Quebra-Nozes) foi muito boa, diferente do que eu esperava em alguns sentidos, mas me impressionou em outros. Eu achava que ballets eram muito mais entediantes, mas não são. Pelo menos aqui, num dos teatros mais tradicionais do mundo, onde esses ballets foram estreados, ou pelo menos executados com a presença do compositor, as produções são muito bem produzidas. Os cenários, os figurinos, a música e a dança são muito bons. Na verdade eu não entendo de dança, por isso não sei se era realmente bom, ou se foi só minha impressão, mas foi bem divertido. Eu achava que O Quebra-Nozes seria o mais legal, mas não foi isso que eu achei, porque tem bem pouca dança e a estória não é tão divertida, como os outros dois. O Lago dos Cisnes foi o meu preferido, principalmente depois de ter assistido ao filme O Cisne Negro, que está nos cinemas agora e eu recomendo fortemente.
Quanto aos concertos, foram dois: o primeiro somente de um cravista russo, tocando as Variações Goldberg de Bach, que são belíssimas; e segundo da Filarmônica de São Petersburgo tocando uma peça do Luigi Nono chamada Il Canto Sospeso, que é difícil de se entender, porém com ideias bem interessantes (esse compositor tem um mote que ele usou no fim da vida que eu achei genial: “Caminantes, no hay camino, hay que caminar”) e a sétima sinfonia de Beethoven. O recital de cravo foi muito bom porque eu gosto muito dessa peça. Uma menina de Taiwan que mora no mesmo hostel estava lá, mas não gostou muito, por achar entediante, já que a execução dura mais de uma hora. O concerto da orquestra foi muito bom também, porque combinou uma peça extremamente de vanguarda, com uma compreensibilidade bem difícil a primeira audição, baseada no serialismo integral da escola de Darmstadt, que eu estudei ano passado num curso sobre Filosofia da Música; com uma das sinfonias mais felizes e divertidas de Beethoven. A sala da filarmônica é muito bonita e tem muita história também, sendo, talvez, a mais antiga que eu já visitei. Todos os compositores russos mais importantes, como Tchaikovski e Stravinsky, além de vários outros, como Mahler e Richard Strauss, executaram suas peças ali. Essa sala é que aparece no documentário sobre o Nelson Freire, onde ele ensaia o Concerto nº2 de Brahms.
Fora essas atividades, não tenho feito muito turismo, porque cansei disso um pouco. Na verdade, terminei o Hermitage alguns dias atrás, na minha terceira visita ao museu gigantesco. Tem muitas igrejas e museus para visitar, mas não estou com muita vontade de fazer isso. O trabalho me ocupou vários dias durante essas semanas, mas não foi muito bom, porque não estava muito motivado mais. Um dos motivos para isso foi que estava começando a ficar muito repetitivo, já que teve algumas aulas que eu dei 12 vezes e que as coisas não estavam indo muito bem. O pessoal do meu projeto estava ocupado com outras coisas e ocorreram alguns problemas, sendo que um foi bastante inconveniente para mim. Na segunda-feira passada eu fui esquiar numa pista que tem aqui perto e foi bem divertido porque, apesar de a última vez ter sido ainda na Suíça, eu estou ficando bastante bom, não tendo caído nenhuma vez, ao contrário dos principiantes que foram comigo. No caminho pra estação, que levou mais de uma hora, recebi uma ligação da coordenadora de uma das escolas que ficou reclamando de diversas coisas para mim, sendo que quem deveria ter ouvido isso era o pessoal da Aiesec que estava em Moscou numa conferência, onde o telefone não funcionava. Ela foi um pouco grossa e reclamou com a pessoa errada, já que eu fui o único que não faltei nenhuma vez e cumpri com todos os compromissos. Fiquei bem desmotivado, mas continuei os últimos dias de trabalho e ainda estou trabalhando essa semana, não mais dando aulas, mas instruindo os novos trainees que vão continuar com o projeto. Eles também são um pouco displicentes, não tendo ido para o trabalho hoje e me deixando esperando na estação por uma hora, mas não tenho o que fazer. Não vou ficar cobrando gente crescida a cumprir com suas obrigações. Não vim aqui para isso.
Nos próximos três dias, meus últimos aqui, vou terminar esse trabalho, acompanhar meus amigos que partem para o aeroporto, comprar souvenirs, comer em bons restaurantes, coisa que não fiz muito bem ainda e planejar o resto da viagem. Uma coisa que eu fiquei bem feliz de ter feito hoje foi ter comprado uma câmera soviética (http://www.sovietcams.com/index.php?-1170803771, é a terceira foto) ainda de filme, mas muito legal, que vou usar pra usar no resto da viagem. Eu planejava levar caviar para o Brasil, mas não é possível porque ele tem que ficar refrigerado o tempo todo e é caro o suficiente para me desencorajar a correr o risco. Mesmo comer caviar aqui acho que vai ficar para a próxima vez, porque não cabe no meu orçamento (a degustação dos três tipos de caviar, em pequena quantidade, cerca de 15 gramas de cada, custa cerca de 200 dólares). Então acho que vou comer os peixes já nascidos e crescidos e outros pratos russos, que vão sair mais em conta e talvez sejam mais apetitosos.
A viagem para a Índia está quase chegando e estou um pouco ansioso pelo calor e pela companhia, já que estou um pouco solitário aqui, principalmente porque hoje é Valentine’s Day e que a previsão para amanhã é de -27. Já reservei um hotel para a primeira noite em Delhi e assim que a gente chegar lá a gente vai decidir o que a gente vai fazer pelo resto da semana. Vamos ver qual vai ser a minha impressão da Índia.